quinta-feira, 25 de junho de 2020

Sobre meu avô


Sobre meu Avô

Conturbação em todo o meu ser. Na primeira noite, sofrendo de palpitação cardíaca, curvei-me, lenta e cautelosamente, para desatar os sapatos, tentando controlar a dor.

Mal tocara o primeiro botão, meu peito estufou-se, tomado de uma presença divina, desconhecida, e estremeci em meio a soluços, lágrimas brotando-me dos olhos. O ser que viera em meu socorro, salvando-me da aridez do espírito, fora o mesmo que, anos antes, em um momento de exaustão e solidão idênticas, em um momento em que nada restava de mim, surgira e a mim mesmo me resgatara, pois esse ser era eu mesmo, e algo mais que eu.

Na memória eu acabara de perceber, curvando-se sobre o meu cansaço, o rosto meigo, preocupado, decepcionado de meu avô, naquela noite de minha chegada pela primeira vez no Hospital; 

Não era o rosto daquele avô cuja morte lamentei, e que me causara perplexidade e impotência diante da vida. E com o qual tudo tinha em comum, exceto o nome, mas do meu verdadeiro avô, cuja realidade viva, pela primeira vez desde a tarde em que ela se foi, no Derby , ao lado do Capibaribe, eu agora resgatava, em uma lembrança total e involuntária.

Essa realidade não existe para nós, a não ser quando recriada pelo pensamento, (caso contrário todos os homens envolvidos em embates titânicos seriam grandes poetas épicos) e assim em meu desejo incontido de atirar-me em seus braços, como se voltasse a ter seis anos descendo com ele as enormes escadas do Manoel Borba para comprar uma revista de desenhos tão ansiosamente desejada, foi somente naquele momento – mais de seis meses depois de ele ter sido sepultado, devido ao anacronismo que tantas vezes impede a correspondência entre o calendário dos fatos e o calendário dos sentimentos – que me conscientizei assombrado de sua morte.

Eu havia me referido a ele inúmeras vezes e nele havia pensado, mas, por trás das palavras e dos pensamentos típicos de um jovem ingrato, egoísta e cruel, jamais houvera algo  que se assemelhasse à meu avô, porque na minha frivolidade, no meu amor pelo prazer, na minha familiariedade com o espetáculo da sua doença que se estendeu por meses, guardei no meu interior apenas um potencial da memória do que ele fora. 

 Em qualquer momento determinado, a nossa alma tem apenas um valor mais ou menos fictício, a despeito do valioso patrimônio composto por seus bens, uma vez que tais bens, em momentos alternados, são inalienáveis, sejam eles concretos ou imaginados – no meu caso, por exemplo, relativos não apenas à antigas lembranças de almoços e bingos em família, MAS, o que é muito mais sério, à verdadeira memória de meu avô.

Pois às perturbações da memória estão ligadas as intermitências do coração. É sem dúvida, a existência do nosso corpo, que podemos comparar a um vaso cujo conteúdo é a nossa natureza espiritual, que nos induz a supor que toda a nossa riqueza interior, as alegrias do passado, todas as tristezas, permanecem, para sempre, em nosso poder. Talvez seja igualmente incorreto supor que elas fogem ou retornam. Em todo caso permanecem em nosso interior, pois na maioria das vezes, deixam deixam de nos ser úteis quando se encontram em uma região desconhecida, onde até o que existe de mais comum, fica tomado por outro tipo de memória, que impede a ocorrência simultânea das mesmas em nosso consciente.

Mas, se o contexto das sensações em que são preservadas é resgatado, elas adquirem a capacidade de expulsar tudo o que com elas for imcompatível, de instalar em nós o eu que, originalmente as vivenciou.

À MEDIDA que o “eu do presente” que, subitamente, eu acabara de voltar a ser deixara de existir, desde aquele dia, tantos anos antes, quando meu avô me levou para comprar revistas e em seus braços acabei batendo a cabeça no teto da segunda escada, lembrando da doçura com que disputávamos de quem havia sido a culpa, cada um se culpando respectivamente frente à minha avó, 

como se o tempo consistisse em uma série de linhas distintas e paralelas--, sem qualquer solução de continuidade, 
O meu eu de então, há muito desaparecido, estava, novamente, tão próximo que eu ainda parecia ouvir as palavras que acabavam de ser pronunciadas, ainda que agora não passassem de um fantasma, como um homem que ainda sonolento, pensa ser capaz de ouvir os sons do sonho que se esvai.

Agora eu era exclusivamente o indivíduo que buscara refúgio nos braços do avô, que tentara esquecer as tristezas sufocando-o com beijos, aquela pessoa que deveria ter sido tão difícil para eu imaginar, quando eu era um outro dos que há algum tempo eu vinha sendo, assim como agora, para fazer o vão esforço de experimentar os desejos e as alegrias de um dos aqueles que há algum tempo eu deixara de ser.

Lembrei-me que uma hora antes do momento em que meu avô, vestido com sua bermuda de pano e sua sandália marrom, curvara-se para desatar meus sapatos, enquanto eu caminhava pela sala ansioso, ao passar pela porta, PERCEBI QUE JAMAIS PODERIA, NA MINHA NECESSIDADE DE SENTIR OS BRAÇOS DELE EM VOLTA DE MIM, AGUARDAR À HORA QUE AINDA FALTAVA PARA IRMOS. Eram momentos de extrema ansiedade.

E agora que essa mesma necessidade foi revivida, eu sabia que poderia esperar horas a fio, que ele jamais voltaria a estar do meu lado. Eu apenas acabara de descobrir isso porque , ao sentir meu avô pela primeira vez vivo, real, levando o meu coração quase a explodir, ao finalmente encontrá-lo, acabara de constatar que o perdera para sempre. PARA SEMPRE o PERDERA.

Não conseguia entender e lutei para suportar a angústia dessa contradição: de um lado, uma existência e um carinho que em mim sobreviveram conforme os conheci, quero dizer, que foram criados para mim, um amor que em mim encontrou de modo tão integral o seu complemento, o seu objetivo, a sua constante estrela-guia, que o gênio dos grandes homens, toda genialidade que existiu desde o começo do mundo, seria menos valioso para meu avô que um só dos meus defeitos. 

As palavras daquele dia se esvaecem, Sons de um pálido adeus de lágrimas, sonho cujas asas,
sentimos roçar levemente... Que ele possa dizer onde sereno descansa: tem alguém aí ? Ouço um ruído...

Que ressoe no escuro do seu último lugar na várzea, como passadas da minha alma.



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