Sobre meu Avô
Conturbação em todo o
meu ser. Na primeira noite, sofrendo de palpitação cardíaca,
curvei-me, lenta e cautelosamente, para desatar os sapatos, tentando
controlar a dor.
Mal tocara o primeiro
botão, meu peito estufou-se, tomado de uma presença divina,
desconhecida, e estremeci em meio a soluços, lágrimas brotando-me
dos olhos. O ser que viera em meu socorro, salvando-me da aridez do
espírito, fora o mesmo que, anos antes, em um momento de exaustão e
solidão idênticas, em um momento em que nada restava de mim,
surgira e a mim mesmo me resgatara, pois esse ser era eu mesmo, e
algo mais que eu.
Na memória eu acabara
de perceber, curvando-se sobre o meu cansaço, o rosto meigo,
preocupado, decepcionado de meu avô, naquela noite de minha chegada pela primeira vez no Hospital;
Não era o rosto daquele avô cuja morte lamentei, e que me causara perplexidade e impotência diante da vida. E com o qual tudo tinha em
comum, exceto o nome, mas do meu verdadeiro avô, cuja realidade
viva, pela primeira vez desde a tarde em que ela se foi,
no Derby , ao lado do Capibaribe, eu agora resgatava, em uma lembrança total e
involuntária.
Essa realidade não
existe para nós, a não ser quando recriada pelo pensamento, (caso
contrário todos os homens envolvidos em embates titânicos seriam
grandes poetas épicos) e assim em meu desejo incontido de atirar-me
em seus braços, como se voltasse a ter seis anos descendo com ele as enormes escadas do Manoel Borba para comprar uma revista de desenhos tão ansiosamente desejada, foi somente naquele momento – mais de seis meses depois de ele ter sido sepultado, devido ao anacronismo que tantas
vezes impede a correspondência entre o calendário dos fatos e o
calendário dos sentimentos – que me conscientizei assombrado de sua morte.
Eu havia me referido a
ele inúmeras vezes e nele havia pensado, mas, por trás das palavras
e dos pensamentos típicos de um jovem ingrato, egoísta e cruel,
jamais houvera algo que se assemelhasse à meu avô,
porque na minha frivolidade, no meu amor pelo prazer, na minha
familiariedade com o espetáculo da sua doença que se estendeu por meses, guardei no meu
interior apenas um potencial da memória do que ele fora.
Em
qualquer momento determinado, a nossa alma tem apenas um valor mais
ou menos fictício, a despeito do valioso patrimônio composto por
seus bens, uma vez que tais bens, em momentos alternados, são
inalienáveis, sejam eles concretos ou imaginados – no meu caso,
por exemplo, relativos não apenas à antigas lembranças de almoços e bingos em família,
MAS, o que é muito mais sério, à verdadeira memória de meu avô.
Pois às perturbações
da memória estão ligadas as intermitências do coração. É sem
dúvida, a existência do nosso corpo, que podemos comparar a um vaso
cujo conteúdo é a nossa natureza espiritual, que nos induz a supor
que toda a nossa riqueza interior, as alegrias do passado, todas as
tristezas, permanecem, para sempre, em nosso poder. Talvez seja
igualmente incorreto supor que elas fogem ou retornam. Em todo caso
permanecem em nosso interior, pois na maioria das vezes, deixam
deixam de nos ser úteis quando se encontram em uma região
desconhecida, onde até o que existe de mais comum, fica tomado por
outro tipo de memória, que impede a ocorrência simultânea das
mesmas em nosso consciente.
Mas, se o contexto das
sensações em que são preservadas é resgatado, elas adquirem a
capacidade de expulsar tudo o que com elas for imcompatível, de
instalar em nós o eu que, originalmente as vivenciou.
À MEDIDA que o “eu do presente”
que, subitamente, eu acabara de voltar a ser deixara de existir,
desde aquele dia, tantos anos antes, quando meu avô me levou para comprar revistas e em seus braços acabei batendo a cabeça no teto da segunda escada, lembrando da doçura com que disputávamos de quem havia sido a culpa, cada um se culpando respectivamente frente à minha avó,
como se
o tempo consistisse em uma série de linhas distintas e paralelas--,
sem qualquer solução de continuidade,
O meu eu de então, há
muito desaparecido, estava, novamente, tão próximo que eu ainda
parecia ouvir as palavras que acabavam de ser pronunciadas, ainda que
agora não passassem de um fantasma, como um homem que ainda
sonolento, pensa ser capaz de ouvir os sons do sonho que se esvai.
Agora eu era
exclusivamente o indivíduo que buscara refúgio nos braços do avô,
que tentara esquecer as tristezas sufocando-o com beijos, aquela
pessoa que deveria ter sido tão difícil para eu imaginar, quando eu
era um outro dos que há algum tempo eu vinha sendo, assim como
agora, para fazer o vão esforço de experimentar os desejos e as
alegrias de um dos aqueles que há algum tempo eu deixara de
ser.
Lembrei-me que uma hora antes do momento em que meu avô,
vestido com sua bermuda de pano e sua sandália marrom, curvara-se para desatar meus sapatos,
enquanto eu caminhava pela sala ansioso, ao passar pela
porta, PERCEBI QUE JAMAIS PODERIA, NA MINHA NECESSIDADE DE
SENTIR OS BRAÇOS DELE EM VOLTA DE MIM, AGUARDAR À HORA QUE AINDA
FALTAVA PARA IRMOS. Eram momentos de extrema ansiedade.
E agora que essa mesma
necessidade foi revivida, eu sabia que poderia esperar horas a fio,
que ele jamais voltaria a estar do meu lado. Eu apenas acabara de
descobrir isso porque , ao sentir meu avô pela primeira vez vivo,
real, levando o meu coração quase a explodir, ao finalmente
encontrá-lo, acabara de constatar que o perdera para sempre. PARA
SEMPRE o PERDERA.
Não conseguia
entender e lutei para suportar a angústia dessa contradição: de um
lado, uma existência e um carinho que em mim sobreviveram conforme
os conheci, quero dizer, que foram criados para mim, um amor que em
mim encontrou de modo tão integral o seu complemento, o seu
objetivo, a sua constante estrela-guia, que o gênio dos grandes
homens, toda genialidade que existiu desde o começo do mundo, seria
menos valioso para meu avô que um só dos meus defeitos.
As palavras daquele dia se esvaecem, Sons de um pálido adeus de lágrimas, sonho cujas asas,
sentimos roçar levemente... Que ele possa dizer onde sereno descansa: tem alguém aí ? Ouço um ruído...
Que ressoe no escuro do seu último lugar na várzea, como passadas da minha alma.
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